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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A luta contra a ditadura e a luta de classes

DO SITE DO PSTU

A luta contra a ditadura e a luta de classes


Temos o direito de saber quem foram os grandes patrocinadoras da repressão


Américo Gomes, de São Paulo (SP)*
Boilense, então presidente da Ultragaz, patrocinou a Oban
• Uma série de historiadores brasileiros busca colocar a luta contra a ditadura simplesmente como a luta de todo o povo brasileiro contra um regime autoritário onde se buscava a construção de uma sociedade democrática. O que é verdade.

No entanto, parte da verdade. Não se pode subestimar o fato de que o Golpe Cívico-Militar de 31 de março de 1964 teve como seu principal objetivo atacar as organizações da classe operária, que ganhavam cada vez mais força e organização.

Embora tenha tomado a forma de uma operação militar, como todo golpe, comandada por oficiais das altas patentes das Forças Armadas, o movimento foi orquestrado por setores da burguesia nacional e do imperialismo norte-americano.

Seu objetivo central era derrotar a classe operária e pavimentar o caminho para o projeto de “modernização econômica do Brasil”, que depois veio a se chamar “milagre econômico”. Condição necessária para criar condições para a maior exploração da classe trabalhadora.

O terror burguês na forma de uma ditadura era imprescindível para impor uma politica de concentração de renda e de entrega da economia nacional ao imperialismo. Por isso estiveram diretamente envolvidos na conspiração, iniciada no governo do John Kennedy e implementada por Lindoln Johnson, o embaixador Lincoln Gordon e o general Walters, articulados com a CIA e o Departamento de Estado norte-americano.

Chegaram inclusive a organizar a “Operação Brother Sam”, com o deslocamento de tropas militares imperialistas para a costa brasileira, para o caso de haver alguma resistência ao golpe.

No entanto, não houve praticamente resistência, de um lado por que João Goulart colocou a garantia da ordem burguesa acima de suas aspirações pessoais. E do outro o PCB, o maior partido operário na época, que vinha sistematicamente capitulando ao governo, apoiando as reformas de base, não somente ficou prostrado, mas foi contra qualquer reação. Prestes se manifestou claramente contra a greve geral chamada pela CGT, pois “daria margem a provocações e seria desnecessária, pois o governo tinha força militar para sufocar o levante”. (1)

Já o empresariado imperialista se organizava no complexo político e financeiro IPES/IBAD, onde pensavam e patrocinavam o golpe (2). Um de seus principais “cérebros” era o general Golbery de Couto e Silva. Financiavam campanhas parlamentares com dinheiro que vinha diretamente dos bancos Royal Bank of Canada, Bank of Boston e First National City Bank. E de empresas multinacionais como a: Ford, GM, Coca-cola e I.T.T. Formaram a “Rede da Democracia”, idealizada pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, com jornais, revistas, rádios e emissoras de televisão. Das quais faziam parte as rádios Tupi, Jornal do Brasil e a Rede Globo de Roberto Marinho. (3)

O golpe de 1964 foi, portanto, um movimento imperialista, com os militares como instrumentos a serviço do capital financeiro e industrial. Durante a ditadura, a relação entre as empresas capitalistas e aparato de repressão se estreitou. Os trustes passaram a controlar os setores mais dinâmicos da indústria como a indústria automobilística (99,8%); farmacêutica (100%,); eletro-eletrônico (80%), plásticos/borracha; autopeças, bebidas/fumo, máquinas/equipamentos e distribuição de derivados de petróleo. (4)

Na agricultura, o domínio imperialista se integrou com o latifúndio. Ampliou o monopólio da terra e ergueu grandes complexos agroindustriais, agropecuários, agroquímicos e madeireiros, associando-se a uma burguesia rural, com a eliminação do pequeno agricultor.

Consequentemente, estreitaram-se os laços entre os grandes capitalistas e o aparato de repressão. O próprio presidente Ernesto Geisel admitiu: “Houve muita colaboração entre o empresariado e os governos estaduais. A organização que funcionou em São Paulo, a OBAN, foi obra dos empresários paulistas” (5). Ou o almirante de esquadra Hernani Goulart Fortuna “a Operação Bandeirantes, a mais violenta da repressão, em São Paulo, (era) apoiada pela FIESP”. (6)

O delegado José Paulo Bonchristiano na entrevista “Conversas com Mr. DOPS” (7) declarou que Roberto Marinho, “passava no DOPS para conversar com a gente quando estava em São Paulo”. E o delegado Cláudio Guerra, em “Lembranças de uma Guerra Suja”, conta que Marinho, solicitou ao seu grupo paramilitar um atentado a sua casa, pois estava muito identificado pela ditadura frente à esquerda. (8)

Bonchristiano também afirma que podia telefonar a qualquer hora para Octávio Frias de Oliveira, dono da Folha de S. Paulo “para pedir o que o DOPS precisasse”. O documentário “Cidadão Boilesen” na mesma linha, menciona que a Folha, de Frias, cedia automóveis para serem utilizados por agentes da repressão em ações de campana, busca e captura de militantes de organizações políticas. Ações confirmadas por Carlos Guerra (9) e Élio Gáspari (hoje colunista da “Folha”) em seu livro “Ditadura Escancarada” (10)

O coronel Erasmo Dias garante que “o Julio de Mesquita Filho, quer dizer, O Estado de São Paulo, também as ‘escancas’ nos apoiou, não tem duvida. E outros empresários, aquele lá de Osasco, Vidigal nos apoiou nunca esconderam e o apoio para nós era importante não só informação, com estrutura, e era para nós uma participação que interessava” (11)

A ligação com os banqueiros então, era absolutamente transparente, Bonchristiano descreve que quando montou a Polícia Federal em São Paulo, o fundador do Bradesco, Amador Aguiar, cedeu uma ala de seu banco para funcionar a Policia Federal provisoriamente e “mandou caminhões do Bradesco carregados com o que fosse necessário para montar a delegacia da Policia Federal na rua Piauí”. (12)

Além de Aguiar outro dos mais notórios banqueiros foi Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, dono do Banco Mercantil de São Paulo e secretário de Fazenda durante o governo Carvalho Pinto O Mercantil foi vendido, ao Bradesco, em 2002. Vidigal promovia reuniões no Clube Paulistano, para arrecadar fundos para a Operação Bandeirantes. (13) Muitas vezes em companhia do Ministro da Fazenda, Delfim Neto, para maior prestígio e maior credibilidade. (14)

O Sudameris era outro patrocinador da repressão e da tortura. Pertencia à Intesa, um dos maiores bancos da Itália sediado em Milão, controlado por fascistas, sendo posteriormente vendido ao ABN AMRO e depois incorporado ao Banco Real.

O mais famoso empresário Boilesen, diretor da FIESP, presidente da Associgas, personagem principal do filme “Cidadão Boilesen”, de Chaim Litewski, emprestava caminhões e uniformes da Ultragas para as campanas da policia, freqüentava o DOI/CODI onde foi visto e identificado pelos presos (15). Já havia recebido, da Câmara de Vereadores, o titulo de cidadão paulistano em 1963,

O delegado Carlos Guerra denuncia que, entre os que freqüentavam os porões da repressão, estavam juízes como Nicolau dos Santos Neto, o Lalau; empresários Ciro Batelli, vice-presidente da rede de Hotéis Caesar Palace, que hoje trabalha no Domingão do Faustão; (16) e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. (17) Também estão nas listas dos colaboradores Jorge Wolney Atalla, presidente da Copersucar e João Carlos Di Gênio, proprietário do cursinho pré-vestibular Objetivo, que alardeava sua amizade com Fleury, e circulava em bares e restaurantes com o major Mauricio Lopes Lima, chefe de uma equipe de busca do DOI/CODI. (18)

Na véspera de sua morte, Boilesen tinha oferecido um jantar em sua mansão no Morumbi, onde esteve presente Sebastião Camargo. Em seu enterro estiveram, entre outros: o ministro Delfim Netto; o ex-ministro Roberto Campos; o prefeito de São Paulo, Figueiredo Ferraz; o governador Laudo Natel, secretários do Estado e outras autoridades. (19)

A Camargo Correia, diga-se de passagem, juntamente com as multinacionais automobilísticas, contribuía com altas somas para a tenebrosa caixinha da repressão, retribuindo os favores do regime militar. Além dela a OBAN, e depois o DOI/CODI, se nutria de verbas fornecidas pela Ford, General Motors (20) e Mercedes Bens. (21)

O Presidente da FIESP, Theobaldo de Nigris, cedia a sede da entidade para reuniões arrecadatórias, para financiar a compra de armas modernas, trazidas dos Estados Unidos, ou produzir carros como os Galaxies blindados, para os agentes da OBAN. (22)

As contribuições eram em dinheiro, veículos, combustível, recompensa. As gratificações chegavam como salário complementar, emprego paralelo, vantagens pessoais e ajuda material. Os valores sempre foram secretos, mas suficientes para a independência financeira de muitos. . (23)

Por seu lado as empresas constituíam sistemas de informação, privados e internos em suas fábricas, assessorados por experts a serviço da ditadura. Articulados com os aparatos de repressão, serviam para identificar e denunciar ativistas políticos.

Após a queda da ditadura, militares estabeleceram empresas de segurança que faziam espionagem para grandes multinacionais e serviço de segurança para executivos estrangeiros.(24) O povo brasileiro tem o direito de saber quem financiou todo esse aparato repressivo.

A Comissão da Verdade prestaria um esclarecedor serviço ao país se trouxesse à luz quais as empresas que diretamente financiaram o golpe e a repressão aos que lutaram contra esta ditadura. Afinal deve ser de conhecimento publico quem foram os grandes patrocinadores da repressão, e, que, obviamente, receberam muitas benesses em troca de sua colaboração.

Devem ser punidos sim os que prenderem ilegalmente, torturaram e seqüestraram, mas também, aqueles que os financiaram.

Américo Gomes é advogado e membro da Comissão de presos e perseguidos políticos da ex-Convergencia Socialista

Notas
1 - Combate nas Trevas, A Esquerda Brasileira: das ilusões perdidas a luta armada, Jacob Gorender, p 65
2 - René Armand Dreiffus, 1964: A conquista do Estado, ação política, poder e golpe de classe, Ed Vozes
3- Aloysio Castelo de Carvalho A Rede da Democracia: O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-64), Niterói, Eduff/Nitpress, 2010
4- POSSAS, Mario Luiz. Empresas Multinacionais e Industrialização no Brasil. In: Desenvolvimento Capitalista no Brasil. Vol. 2 .S.Paulo, Ed. Brasiliense, 1983. pp. 24-25.
5- Ernesto Geisel. de Maria Celina DAraujo e Celso Castro Rio de Janeiro Editora FGV. 5ª Edição, 1998. p 215
6- Militares, Confissões, Historias Secretas no Brasil, Helio Contreiras, Rio de Janeiro, Editora Mauad 1998.
7- Publica, agencia de reportagem e jornalismo investigativo, http://apublica.org/2012/02/conversas-mr-dops/
8- Lembranças de uma Guerra Suja, p 161
9-Lembranças de uma Guerra Suja.
10- (p. 395).
11- Boilesen um empresário da ditadura: a questão do apoio do empresariado paulista à OBAN/Operação Bandeirantes, 1969-1971, Jorge José de Melo, Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia
12-Autópsia do Medo, Percival de Souza, p 403
13-Lembranças de uma Guerra Suja, Cláudio Guerra depondo a Marcelo Netto e Rogerio Medeiros, p 142
14- Elio Gaspari, ADitadura Escancarada. São Paulo, Companhia das Letras, 2002, p. 61-62
15- Autópsia do Medo, Percival de Souza, p 171
16- Lembranças de uma Guerra Suja, Cláudio Guerra depondo a Marcelo Netto e Rogerio Medeiros, p 121
17- Lembranças de uma Guerra Suja, Cláudio Guerra depondo a Marcelo Netto e Rogerio Medeiros, p 124
18- Tortura a História da Repressão Política no Brasil, Antonio Carlos Fon, p 59
19- Boilesen um empresário da ditadura: a questão do apoio do empresariado paulista à OBAN/Operação Bandeirantes, 1969-1971, Jorge José de Melo, Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia
20- Brasil Nunca Mais, um relato para a história, p 73, 7ª Edição
21- Pedro e os Lobos, Os anos de chumbo na trajetória de um guerrilheiro urbano de João Pedro Laquê, p 261
22- Pedro e os Lobos, Os anos de chumbo na trajetória de um guerrilheiro urbano de João Pedro Laquê, p 261
23- Autópsia do Medo, Persival de Souza, p 13.
24- Lembranças de uma Guerra Suja, Cláudio Guerra depondo a Marcelo Netto e Rogerio Medeiros, p 196

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