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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

GENOCÍDIO NÃO É ACIDENTE


Por Guilherme Simões*

Foram mais dois. Ou menos dois. No peito dos meninos. Mas, num caso foi acidente. Disparo acidental. Douglas morreu, mas foi sem querer. Aos 17 anos, tudo o que ele menos queria era morrer. Mas morreu. No outro, um homicídio em legítima defesa. Afinal, se um cara te assalta você pode mata-lo.
Vila Medeiros: o soldado da PM foi pra enquadrar. Naquele dia, já devia ter enquadrado muitos ali na região. A zona norte de São Paulo também guarda seus lugares... No que ele pensou? É possível que não tenha pensado. Pode ter pensado que o moleque tinha cara de bandido, que no “bolinho” de moleque devia estar rolando qualquer coisa. Poderia até ser uma biqueira. “Vou enquadrar, dar uma prensa e um esculacho. Não gosto de função. Não gosto de marginal.” Se ele pensou em atirar? Isso não importa. Se foi acidente? O choro da mãe, dos irmãos e dos amigos não foi acidental. O velório não foi por acaso. A PM matou mais um. Agora é menos um.
A viatura iria encostar, o soldado dar a ordem e os moleques, assustados, parariam. Normal: mão na cabeça ou na parede, de frente ou de costas. Esperavam ouvir os brados:
- Vai! Vai! Vai! Encosta! Cadê o documento?! Que funçãozinha é essa aí? Tem alguma coisa em cima?!
Mas não ouviram nada. Ou melhor, no lugar dos gritos um tiro. Antes de descer, braço pra fora da viatura. Um barulho seco! Dizem que, ao olhar pro soldado, Douglas disse:
- Por que o senhor atirou em mim?
Execução ou acidente, a bala perfurou o peito e sangrou o Douglas. Na mesma velocidade, com a mesma quantidade de pólvora. O Douglas morreu. Aos 17. Seria acidente um PM estar com uma pistola apontada na altura do peito de um adolescente? E uma arma automática disparar? Quantos acidentes! Soldado azarado!
Parque Novo Mundo: O soldado se perde, vítima de um GPS que o leva até os assaltantes, prontos e sempre à espera de alguém que se perca naquele ponto. Quem sabe não são parte de uma máfia que desregulam GPS?! Reage e executa o adolescente que, segundo ele (e só ele) tentou roubar e ainda atirou.
Há 17 anos, os pais do Douglas e do menino do Parque Novo Mundo, mais jovens, comemoravam o nascimento de um dos filhos. Sensação incrível, que mesmo os pobres podem viver, isso enquanto não privatizarem as emoções humanas. Não podiam prever que o Estado e a guerra contra os mais pobres os privariam de viver essa emoção até mais tarde. Nada de faculdade, nada de um emprego melhor. Nada de festinha de dezoito anos na favela.
Douglas estudava e trabalhava. Menino de uma geração que vive otimista com o Brasil. Afinal, o país tem um desemprego pequeno, inflação sob controle e consumo em alta. Nessa fase da vida, nesse momento da história, esses meninos compram carros usados e pensam em crescer. Sonhos vendidos a prazo os fazem acreditar que tudo está indo bem. Mesmo no 7º país que mais mata no mundo, sendo que 72% dos quase 50 mil mortos/ano por homicídios são negros.
Douglas não era negro. Mas vivia no quilombo. Capitão-do-mato existia pra aniquilar quilombola. Polícia militar paulista tem estrelinha pra homenagear os bandeirantes. Acidente?
Depois que o Douglas morreu, o quilombo insurgiu. Fogo em avenidas, rodovias, ônibus, carros e caminhões. Alguém deve resposta ao quilombo! O que se vê e se lê: vândalos e arruaceiros botam fogo na zona norte. Deve ser o crime organizado, afinal pessoas de bem não podem se revoltar com acidentes tão banais, coisas que quase nunca aconteceram. A Dilma já se lamentou com seus 140 caracteres de justiça social. Que mais o Estado pode fazer? “Apurar os fatos, punir os culpados”, como adora sentenciar o governador mais sanguinário desde os militares. Como se isso trouxesse os meninos de volta. Como se isso encerrasse o extermínio. Cínico, Alckmin. Você é cínico.
Prenderam o soldado que matou o Douglas. Justiça é assim. Justiça? Igual a ele, milhares estão soltos. No outro dia, mataram um menino no Parque Novo Mundo. Não será acidente o próximo homicídio contra um pobre periférico em São Paulo. Nenhum genocídio é acidente. 
Acabar com esses “acidentes”? Desmilitarizar a polícia. Meninos: que morra com vocês a paciência do quilombo. Que não seja em vão, porque acidente não foi.

*Professor da rede estadual de São Paulo, membro da coordenação nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) e da Resistência Urbana – Frente Nacional de Movimentos

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