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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Volksgeist, O Espírito que Assombra o Novo Recife de Geraldo Júlio

Flagrante de Volksgeist assombrando Novo Recife


Em 1955, Gilberto Freyre lançava a primeira edição de "Assombrações do Recife Velho", uma coletânea de 27 histórias ou estórias do outro mundo, a depender da crença de cada um. No livro, considerado verdadeira obra-prima sobre a cidade e suas lendas, Freyre faz uma
espécie de inventário de 12 casarões e prédios mal-assombrados do Recife e de personagens do imaginário popular do povo recifense. Newton Moreno, ator, autor e diretor teatral que adaptou a obra para o teatro, prefaciando a edição atual do livro do sociólogo pernambucano, interpreta a obra como uma intenção do autor de, através da análise desses "fantasmas mestiços com seus testemunhos sobre a construção  deste país", obtermos um "entendimento da gênese desse povo e de suas características através de sua relação com esses entes do sobrenatural (…) como se em sua fuga fantasiosa, o povo exorcisasse sua dura realidade de país colonizado e suas dolorosas mazelas de gritantes desigualdades sociais a caminho de seu entendimento como nação."

Dentre os imóveis "visitados" pela obra de Freyre, estão preciosidades como o Teatro Santa Isabel, um dos orgulhos do povo recifense e sobrados no bairro de São José e na Rua Imperial e o Pátio do Terço, ambiente onde as tradições histórico-urbanísticas e arquitetônicas da cidade se fazem presentes com toda a sua força.

Ali mesmo, nas imediações de onde Freyre ambientou uma de suas obras mais populares, no Forte das Cinco Pontas, deu-se o fuzilamento de um dos heróis da Confederação do Equador, o Frei Caneca, fato lembrado pelo douto Juiz Federal Roberto Wanderley Nogueira, na decisão que anulou o leilão dos imóveis onde o prefeito Geraldo Júlio e empresários da especulação imobiliária pretendiam ver construído um megaempreendimento imobiliário chamado Novo Recife, que passou a figurar, de uns tempos para cá, como mais uma das assombrações associadas ao Recife Velho.

Desde que o Novo Recife passou a assombrar o Recife Velho, a cidade não teve mais sossego e o pior foi a descoberta de que o próprio prefeito estava por trás de tal assombração, a ponto de se transmudar em uma espécie de corretor de imóveis de luxo, em reunião, ocorrida em meados de junho deste ano, com a presidente do IPHAN, a arquiteta mineira  Jurema Machado, de modo a tentar convencê-la, juntamente com seu secretário especial para assuntos do Cais José Estelita, Antônio Alexandre e o presidente do Instituto Pelópidas da Silveira, João Domingos, realizada em seu gabinete, onde sequer foi servida uma bolachinha "Pilar" com refresco de laranjas, durante as mais de três horas em que o prefeito ficou mergulhado em sua apresentação em "data-show", sobre as maravilhas do empreendimento imobiliário das empresas Moura Dubeux, Queiroz Galvão, GL Empreendimentos e Ara Empreendimentos, a ponto de, segundo fontes ouvidas pelo Blog, a presidente do IPHAN ter voltado para Brasília bastante constrangida - e assombrada - e com a impressão de que o alcaide tinha mesmo a intenção de lhe vender um apartamento na planta, tal a sua ânsia em lhe "vender" o Novo Recife como "a última coca-cola gelada do deserto".

Mas o que o prefeito Geraldo Júlio, do alto de seu elogio à cegueira, nunca percebeu é que enquanto ele e seus aliados do empresariado assombravam o Velho Recife, eles todos eram assombrados pelo mais poderoso dos espíritos que vagueiam pela terra: Volksgeist, como foi denominado por Hegel o "Espírito do Povo", aquele a quem não é dado a nenhum governante ignorar, desrespeitar ou desconhecer.

Em uma decisão que só surpreendeu àqueles ignorantes da força  de Volksgeist, decisão que encheu de vigor até àqueles que andavam esquecidos de sua pernambucanidade - por obra e desgraça de maus pernambucanos e traidores do Recife, como o prefeito Geraldo Júlio -, o Juiz Federal Roberto Wanderley Nogueira nos lembra o que jamais poderia ter sido esquecido, que “Pernambuco é o centro de grandes lutas libertárias do passado da nacionalidade. Nessas lutas se insere a Confederação do Equador, movimento político e revolucionário ocorrido em 1824 que teve aqui o seu início, foi fomentada por intelectuais e religiosos e se espalhou rapidamente por outras províncias como Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba." Ele diz mais! Insiste em nos recordar que nossa história não é uma história qualquer, mas "uma história muitíssimo cara, e indelével, ao sentimento regional, marcada também por uma intensa participação popular, antes como agora, da qual resultou a eclosão do espírito republicano que acabou germinando no país inteiro."

           
O magistrado insiste em nos lembrar que é "justamente por causa dessa história que substancialmente nenhuma obra, empreendimento ou edificação que se pretenda produzir nesse ambiente social, paisagístico, histórico e cultural pode se contrapor, de forma constitucionalmente válida, a essa vocação natural do meio ambiente para que se garanta às atuais e futuras gerações plenas condições de qualidade de vida e satisfação social, autoestima histórica e identidade coletiva, honra e pundonor. A desconstrução dessa projeção intergeracional, sobre implicar autofagia, traduz um severo agravo à Ordem Constitucional estabelecida, bem como à dignidade das populações injustamente afetadas, hoje e também no futuro, porque privadas de sua própria história. Nada pode ser mais deletério em termos de civilização. Ai do povo que não se reconheça a si próprio como tal! A Constituição Federal o assevera e assegura o respeito às suas tradições em face da multiculturalidade da Nação brasileira."

           Interessante notar que também no prefácio de Newton Moreno, ao "Assombrações" de Gilberto Freyre, o Recife revolucionário que tanto se tentou abafar, esmagar, enterrar e matar, com o Novo Recife de Geraldo Júlio, esse Recife revolucionário, também é lembrado como algo inerente à nossa cidade: "Fantasmas negros, índios, caboclos, mamelucos, judeus, mouros, portugueses, degredados, holandeses. Fantasmas escravizados, vilipendiados, colonizados, invadidos, seviciados, assassinados, colonizadores, imperialistas, invadidos e invasores. (…) O Recife revolucionário e das assombrações. Por que não olhar para os fantasmas revolucionários e subversivos que alimentam a tradição contestatória nordestina? Fantasmas testemunhos da Revolução Pernambucana de 1817, da Revolução Praieira, da Confederação do Equador, da Batalha dos Guararapes e das tabocas, da Colônia Suassuna e, avançando no tempo, da Greve do Cabo, nos idos de 1964."

Geraldo Júlio e seu Novo Recife atravessaram aquela linha que não é dado a nenhum governante atravessar e só alguém que não conhece seu povo e o espírito que lhe dá vida não sabe onde fica esse limite. A sentença de Geraldo Júlio já foi dada. A execução? Volksgeist a fará em outubro de 2016. 

Bom dia, prefeito!

Um comentário:

  1. Oi, tudo bem? Veja as previsões de ALINE para 2016, https://youtu.be/pXR7qFzXVqo #previsões2016

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